
O trabalho de fotografar a comunidade feito pelos educandos surgiu depois de uma roda de conversa sobre o massacre que aconteceu no Rio de Janeiro em 28/10/2025, no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão. A partir das experiências passadas com o projeto Cartografia Afetiva, desenvolvido em 2024, retomamos a importância do pertencimento ao território onde eles moram, seja na Vila Acaba Mundo ou no Morro do Papagaio.

Nessa conversa, eles relembraram o dia em que fizemos uma apresentação sobre o Dia da Consciência Negra em uma escola particular que tinha apenas um aluno preto. Essa percepção causou um impacto muito grande neles e, a partir disso, introduzimos temas como “o surgimento das favelas/comunidades no Brasil”, pautas decoloniais que abordam o período escravocrata e como o país segue sofrendo reflexos disso até hoje, com seu racismo estrutural e sua necropolítica, que ainda vê corpos pretos e periféricos como descartáveis e inferiores.

Os alunos também destacaram a maior diferença entre nós: dentro de sala de aula, eu sou a única pessoa branca. A partir desse apontamento que veio deles, conversamos sobre os privilégios da branquitude, sobre a passabilidade da cor da pele e sobre como tudo isso é fruto direto da colonização.

Depois dessa conversa, de escutar as dores e as alegrias de morar dentro da comunidade, ouvir as histórias boas, as saudades e até as fofocas, percebi que, mesmo sem saberem, eles pertencem aos seus territórios (Acaba Mundo e Morro do Papagaio). Apresentei para eles o trabalho da “Fotogracria” (@afotogracria), que registra identidades, diversidades e a realidade dentro da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ao conhecerem o trabalho dela, se inspiraram e toparam entrar no Acaba Mundo para realizarmos fotos pelos locais escolhidos por eles.

Fui completamente guiada por eles e elas pelos becos, escadas, morros e matos, para ver e sentir o Acaba Mundo através da vivência de cada um. Eles subiram em pé de manga, me contaram histórias da comunidade, mostraram suas casas, casas de conhecidos e de familiares, e, aos poucos, os trabalhos foram sendo feitos. Usamos duas câmeras, que circularam de mão em mão, e eu apenas dava alguns toques e fazia alguns registros.

Quando cheguei em casa e descarreguei as fotos e vídeos feitos por eles, senti um orgulho imenso. Eles têm um olhar sensível, adoraram posar, fotografar os amigos, gravar uns aos outros e, principalmente, contar suas histórias por meio desses registros. Eles talvez não tenham dimensão da preciosidade do que fizeram nesse passeio de uma hora pelo Acaba Mundo, mas espero que, com esse relato, tenham uma breve noção do quanto são brilhantes e do quanto merecem ter sucesso e reconhecimento nessa vida.

Eu contribuí apenas com palavras, edições e alguns pitacos, mas tudo isso foi inspirado neles: na lealdade, na união e em toda vida que me mostraram dentro da comunidade, colhendo frutas para comer, vendo a água descendo pelos córregos, sentindo a vontade de viver que sempre se manifesta nos sonhos, nos sorrisos e no desejo de ter um amanhã melhor.

Aprendi com eles que “A favela vive, a favela quer viver!” Espero que eles encontrem na arte, no esporte e em outros caminhos a força para prosseguir e o desejo de pertencer cada vez mais. E que nunca desistam dos seus sonhos, porque é sonhando que se chega lá.

Educandos:
Alice Fernandes Soares
Ana Gabriela de Souza Dias
Matheus Lucas Batista da Silva
Yasmin Caroline Batista
Gustavo Santos da Conceição
Kaila Layane de Lima
Pietro Santiago Carvalho da Silva
Sarah Nunes de Oliveira
Yran Felippe Faria Mário







Educadora: Ana Luíza Guerra
Realizado na oficina de Artes Digitais do projeto Gestão e Manutenção 2025, aprovado na Lei Rouanet. Apoio do Ministério da Cultura e patrocínio da Coca-Cola, RHI Magnesita, Construtora Terraço, Hexagon, MVC Transporte e Soprema.
