Cidadania não é discurso: é ação

Há uma pergunta que Maria Alice Setubal, socióloga, doutora em psicologia da educação e presidente do Conselho da Fundação Tide Setubal, formula num texto de 2024 na Folha de S. Paulo que não sai da cabeça de quem trabalha com populações vulneráveis no Brasil. Como podemos ser tão solidários nas catástrofes emergenciais e, ao mesmo tempo, tão indiferentes às violências cotidianas que atingem mulheres, pessoas negras, a população em situação de rua e pobre?

A pergunta tem força porque não é retórica. É uma contradição real, observável e documentada: o mesmo país que mobilizou bilhões de reais para o Rio Grande do Sul num tempo recorde é o país que naturaliza feminicídios, que convive com abismos educacionais entre ricos e pobres e que frequentemente trata a pobreza como problema individual de quem é pobre.

Esse texto é uma tentativa de levar a pergunta de Setubal para dentro do trabalho cotidiano da Associação Querubins e de responder, a partir do que fazemos, o que significa transformar solidariedade de catástrofe em cidadania permanente.

A solidariedade de catástrofe e seus limites

Setubal observa que a solidariedade emerge com força em momentos de catástrofe porque as pessoas reconhecem formas concretas e imediatas de agir, doações, voluntariado, arrecadação, que produzem satisfação e senso de fraternidade. O dado que ela cita é expressivo: em 2022, 84% dos brasileiros adultos com renda acima de um salário mínimo fizeram ao menos um tipo de doação, número que havia sido 66% dois anos antes.

Mas ela aponta, com precisão, o limite dessa solidariedade: ela tende a ser reativa, pontual e motivada pela visibilidade da catástrofe. As câmeras somem e a mobilização diminui. O que fica é o problema estrutural que a catástrofe tornou visível por alguns dias e que existia antes e continua existindo depois.

Para quem trabalha com crianças em situação de vulnerabilidade em Belo Horizonte, isso não é novidade. O Querubins existe há anos numa realidade que não vira manchete, a da criança que chega sem ter comido, que estuda numa escola sem recursos suficientes. Não há catástrofe pontual aqui. Há uma catástrofe lenta, estrutural e cotidiana que a maioria das pessoas não vê porque não aparece nas notícias.

Expandir o senso de colaboração das emergências para ações de mudança planejadas e compartilhadas coletivamente é um dos desafios mais urgentes do Brasil. Cidadania não é discurso: é ação.

O que está por trás da indiferença

Setubal oferece um diagnóstico que vai além da psicologia individual. Por trás da naturalização das violências, ela escreve, estão as enormes desigualdades sociais brasileiras que corroem e esgarçam o tecido social, impedindo maior coesão e a criação de vínculos. Não é que as pessoas sejam más. É que a desigualdade cria distâncias tão grandes, de territórios, de experiências, de mundos, que fica difícil sentir o que acontece com o outro como algo que diz respeito a você.

Essa análise tem uma implicação direta para organizações como o Querubins: parte do nosso trabalho é, precisamente, criar pontos de contato entre mundos que a desigualdade separa. Quando um doador visita o projeto e conversa com uma criança. Quando uma criança do contraturno apresenta um trabalho de fotografia numa exposição aberta à cidade. Quando um voluntário compartilha seu conhecimento e aprende algo que só existe no território. Esses encontros constroem o que Setubal chama de laços de confiança, a base, para ela, de uma sociedade mais solidária e mais democrática.

Da doação pontual ao vínculo estrutural

Setubal distingue duas formas de engajamento com as desigualdades: a doação pontual, reativa e de curto prazo, e a ação estruturante, planejada e de longo prazo. Ela defende que fundações e institutos precisam arriscar mais na direção de apoios a projetos estruturantes e de territórios que apoiem a infraestrutura e as populações periféricas.

Para uma organização social como a Querubins, essa distinção é central. O nosso trabalho não é emergencial, é longitudinal. Acompanhamos crianças por anos. Construímos relações com famílias ao longo do tempo. Estamos no território quando ninguém está olhando, quando não há catástrofe visível, quando a pobreza é simplesmente o estado normal das coisas e não há mobilização coletiva para resolvê-la.

Isso exige um tipo específico de apoiador, não o que doa uma vez num momento de comoção, mas o que decide que a desigualdade estrutural merece resposta estrutural. Que a criança de periferia merece atenção não apenas quando há crise, mas todos os dias. Que investir num contraturno de qualidade é investir na mesma criança que, sem esse suporte, estaria mais vulnerável às situações que geram manchetes.

Por que o trabalho cotidiano importa tanto quanto a resposta à crise

  • A criança que não abandona a escola porque tem um espaço de pertencimento evita a evasão que depois vira estatística de vulnerabilidade
  • A família que acessa um benefício porque alguém na organização a orientou evita o endividamento que depois vira exclusão financeira
  • A criança que aprende a nomear e manejar emoções tem mais recursos para navegar conflitos que, sem esse repertório, escalam
  • O vínculo construído com um educador ao longo de anos é proteção que nenhuma intervenção emergencial consegue criar em dias

Construindo laços de confiança no território

O conceito central do texto de Setubal é a construção de laços de confiança como base de uma sociedade mais solidária, mais respeitosa e mais democrática. Ela não está falando de confiança abstrata, está falando da confiança que se constrói em experiências concretas de reciprocidade, de reconhecimento e de corresponsabilidade.

No trabalho da Querubins, esses laços se constroem de formas simples e repetidas: o educador que está lá toda vez. A criança que sabe que tem onde ir. A família que percebe que o projeto não julga, que pergunta como está, que conecta a serviços, que celebra as conquistas. A comunidade que vê suas histórias valorizadas e seus filhos reconhecidos.

Esses laços não aparecem nos relatórios de impacto com facilidade. Não são facilmente mensuráveis. Mas são a substância da cidadania que Setubal descreve, a que não se constrói com campanhas na mídia, mas com presença consistente e com a decisão de que o outro importa, todos os dias.

Como o Querubins constrói laços de confiança no território

  • Presença constante: estamos no bairro, com as mesmas crianças, ao longo de anos, não apenas em momentos de crise
  • Escuta genuína: perguntar como as famílias estão e agir a partir do que ouvimos
  • Articulação de direitos: conectar famílias a benefícios, serviços e proteções que existem mas que nem todos sabem acessar
  • Participação da comunidade: incluir famílias e moradores nas decisões sobre o trabalho, não apenas como beneficiários, mas como sujeitos
  • Transparência: mostrar o que fazemos, como usamos os recursos e o que produzimos, que é o que constrói confiança com apoiadores e com o território

O papel das organizações sociais nesse cenário

Setubal é direta: fundações e institutos podem e devem arriscar mais na direção de apoios a projetos estruturantes. Mas esse argumento tem uma contraparte para as organizações que recebem esse apoio: precisamos ser capazes de demonstrar que o trabalho que fazemos é, de fato, estruturante. Que não apenas atendemos crianças, transformamos trajetórias. Que não apenas oferecemos atividades, construímos cidadania.

Isso exige que organizações como a Querubins invistam em capacidade de narrar o próprio impacto, não para impressionar financiadores, mas porque a narrativa é parte da construção de sentido que Setubal defende. É mostrar que o que acontece no território importa. Que as crianças que passam pela Querubins não são apenas números de atendimento, são pessoas cujas histórias têm valor e cujo desenvolvimento tem impacto real na comunidade onde vivem.

O que o setor social brasileiro está fazendo: dados

  • 84% dos brasileiros adultos com renda acima de 1 salário mínimo fizeram ao menos uma doação em 2022, alta de 18 pontos percentuais em dois anos (Pesquisa Doação Brasil / Ipsos, 2022)
  • O valor médio doado passou de R$ 200 em 2020 para R$ 300 em 2022, indicando não apenas mais doadores, mas maior engajamento
  • Organizações sociais de pequeno e médio porte são responsáveis por grande parte do atendimento a populações vulneráveis no Brasil, frequentemente chegando onde o Estado não chega
  • A doação recorrente e o vínculo de longo prazo com organizações são as formas de apoio com maior impacto sobre a sustentabilidade do trabalho social

Conclusão: expandir a solidariedade além da catástrofe

A pergunta de Setubal não tem resposta fácil. O Brasil é, simultaneamente, um país de enorme solidariedade e de enorme indiferença e os dois não são paradoxo: são resultado de um tecido social profundamente rasgado pela desigualdade, onde empatia flui quando há visibilidade e escassez quando o sofrimento é cotidiano e invisível.

A resposta que organizações como a Querubins oferecem é modesta, e necessária. Não vamos resolver a desigualdade brasileira. Mas podemos criar, num território específico, as condições para que crianças específicas cresçam com mais dignidade, com mais recursos e com mais vínculos do que teriam sem o nosso trabalho. E podemos, ao mesmo tempo, ser pontos de contato entre o território e a cidade mais ampla, construindo os laços de confiança que Setubal identifica como fundamento de qualquer projeto de sociedade mais justa.

“Cidadania não é discurso: é ação”, escreve ela no encerramento do texto. Para o Querubins, essa frase é também rotina. É aparecer todo dia. É conhecer o nome de cada criança. É ligar quando ela falta. É defender, junto com a família, o direito ao que existe e ao que deveria existir. É isso, repetido, cotidiano, invisível, que constrói cidadania. Uma criança de cada vez.

Leia o artigo completo de Maria Alice Setubal aqui