Em 2019, antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde estimava que um em cada cinco adolescentes no mundo vivia com algum transtorno mental. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicavam que transtornos mentais afetavam entre 10% e 20% de crianças e adolescentes, a maioria sem diagnóstico, sem tratamento e sem que os adultos ao redor soubessem o que estavam vendo.
Então veio a pandemia. E os números pioraram. E os serviços, que já eram insuficientes, ficaram ainda mais sobrecarregados. E crianças que já estavam no limite chegaram ao colapso. E o Brasil, que nunca tratou a saúde mental infantil como prioridade de saúde pública, continuou não tratando, com consequências que toda uma geração vai carregar.
O ODS 3 — Saúde e Bem-Estar — estabelece, entre suas metas, a promoção da saúde mental e o bem-estar de toda a população. Para o Brasil, cumprir essa meta significa, fundamentalmente, reconhecer que saúde mental na infância não é pauta de especialistas, não é luxo de quem pode pagar por terapia e não é problema que se resolve com força de vontade. É uma emergência de saúde pública que exige resposta à altura.
Este artigo analisa o estado da saúde mental infantil no Brasil pela lente do ODS 3, apresenta dados, nomeia lacunas e aponta caminhos, com especial atenção ao papel que organizações sociais e profissionais de educação e cuidado podem desempenhar nessa agenda.
O ODS 3 e a saúde mental infantil
O terceiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável estabelece como meta garantir uma vida saudável e promover o bem-estar de todos em todas as idades. A meta 3.4, especificamente, prevê reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, categoria que inclui transtornos mentais, e promover a saúde mental e o bem-estar.
No Brasil, a saúde mental raramente aparece nas discussões sobre saúde pública com a mesma urgência que a saúde física. Doenças invisíveis, que não sangram, que não são captadas por exames de imagem, que se manifestam em comportamento e emoção, historicamente recebem menos atenção, menos financiamento e menos formação profissional do que doenças físicas de mesma gravidade.
Quando se fala em saúde mental infantil, essa invisibilidade é ainda maior. Crianças com transtornos mentais são frequentemente descritas como “problemáticas”, “difíceis” ou “mal-criadas”, em vez de reconhecidas como portadoras de condições que têm nome, têm tratamento e têm impacto real sobre o desenvolvimento, a aprendizagem e o bem-estar.
Saúde mental não é ausência de doença. É a presença de bem-estar, a capacidade de desenvolver potencial, de aprender, de criar vínculos, de contribuir com a comunidade e de enfrentar dificuldades com recursos adequados. Quando crianças não têm isso, toda a sociedade paga o preço.
Os números que revelam a escala do problema
Dados sobre saúde mental infantil no Brasil são sistematicamente subnotificados, o que é, por si só, um problema. O que existe aponta para uma situação grave.
Saúde mental infantil no Brasil: dados essenciais
- Entre 10% e 20% de crianças e adolescentes brasileiros têm algum transtorno mental, estimativas do Ministério da Saúde
- Ansiedade e depressão são os transtornos mais prevalentes em crianças e adolescentes e cresceram significativamente após a pandemia
- O suicídio é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, dados do SIM/DATASUS
- Apenas 18% dos municípios brasileiros têm CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil)
- A maioria das crianças com transtornos mentais não recebe diagnóstico nem tratamento, o tratamento gap no Brasil é estimado em mais de 70%
- Crianças negras, indígenas e de baixa renda têm menor acesso a serviços de saúde mental e maior exposição a fatores de risco
Por que a saúde mental infantil é subprioritizada
A subpriorização da saúde mental infantil tem raízes em múltiplos fatores, culturais, políticos e estruturais, que precisam ser nomeados para ser superados.
O estigma que silencia
Em muitas famílias e comunidades brasileiras, especialmente em contextos de menor acesso à informação, problemas de saúde mental são interpretados como fraqueza moral, falta de fé, má criação ou “frescura”. Essa narrativa atrasa a busca por ajuda, silencia o sofrimento e faz com que crianças que precisam de apoio não recebam, porque os adultos ao redor não reconhecem o problema ou têm vergonha de procurar ajuda.
A invisibilidade do sofrimento infantil
Crianças raramente pedem ajuda da forma que adultos reconheceriam. Seus transtornos mentais se manifestam em comportamento, agressividade, retraimento, queda no desempenho, somatização. Esses sinais são frequentemente interpretados como problemas de disciplina ou de caráter, não como manifestações de saúde mental. O resultado é que crianças sofrendo de depressão são punidas por não se concentrar; crianças com ansiedade são pressionadas a “superar” o medo; crianças com TDAH são chamadas de preguiçosas.
A fragmentação do sistema
O sistema de saúde mental no Brasil é fragmentado entre saúde, educação e assistência social e cada setor opera com lógica própria, sem articulação adequada. Uma criança com transtorno mental que precisa de psicólogo na escola, acompanhamento no CAPSi e suporte familiar no CREAS raramente encontra esses serviços integrados. Ela, e sua família, precisa navegar um sistema que não se comunica, reiniciando do zero em cada serviço.
O impacto da pandemia na geração mais jovem
A pandemia de Covid-19 foi, para crianças e adolescentes, um evento de ruptura sem precedentes: fechamento de escolas por meses, isolamento social, perda de familiares, instabilidade econômica das famílias, interrupção de serviços de saúde e de apoio. O impacto sobre a saúde mental da geração mais jovem foi documentado em pesquisas de todo o mundo e no Brasil não foi diferente.
Dados do Hospital das Clínicas de São Paulo e de outros serviços de referência registraram aumento expressivo de internações por transtornos mentais em adolescentes durante e após a pandemia. Pesquisas com escolares apontam aumento significativo de sintomas de ansiedade e depressão em comparação com dados pré-pandemia. E os serviços de saúde mental infantil, já sobrecarregados antes, ficaram ainda mais distantes de uma demanda que cresceu abruptamente.
Parte dos impactos da pandemia ainda está se manifestando com defasagem. Crianças que estavam em fase crítica do desenvolvimento quando as escolas fecharam estão chegando agora ao ensino fundamental e médio com lacunas emocionais, sociais e cognitivas que precisam de atenção. O pós-pandemia da saúde mental infantil ainda está sendo vivido.
Lacunas críticas no sistema brasileiro
A tabela abaixo organiza as principais lacunas do sistema brasileiro de saúde mental infantil e o que precisaria mudar para endereçá-las:
| Lacuna | Situação atual | O que precisaria mudar |
| Cobertura do CAPSi | Apenas 18% dos municípios brasileiros têm CAPSi e muitos deles com capacidade insuficiente | Expansão urgente dos CAPSi, especialmente em municípios de médio porte e periferias urbanas |
| Tempo de espera | Em muitos municípios, a espera por atendimento psicológico ou psiquiátrico infantil no SUS supera seis meses | Ampliação da oferta via UBS, NASF, psicólogos nas escolas e ampliação dos CAPSi |
| Formação de profissionais | Escassez de psiquiatras infantis e psicólogos especializados em infância, especialmente no interior | Incentivos à especialização; formação em saúde mental infantil na graduação de medicina e psicologia |
| Integração entre setores | Saúde, educação e assistência social raramente trabalham de forma integrada no cuidado da saúde mental infantil | Protocolos de referência e contrarreferência; equipes multiprofissionais no território |
| Estigma | Diagnóstico de transtorno mental em criança ainda carrega estigma que retarda a busca por ajuda | Campanhas de desestigmatização; educação de pais, professores e comunidade sobre saúde mental |
Fatores de risco e fatores protetores
A saúde mental infantil não é determinada por um único fator, resulta da interação entre vulnerabilidades e proteções. Reconhecer os fatores de risco ajuda a identificar quem precisa de atenção prioritária; reconhecer os fatores protetores ajuda a direcionar intervenções eficazes.
Fatores de risco
- Pobreza e insegurança econômica crônica
- Exposição à violência doméstica ou comunitária
- Perda ou separação de figuras de apego
- Histórico familiar de transtornos mentais
- Bullying e exclusão social
- Uso de substâncias pelos pais ou cuidadores
- Falta de acesso a serviços de saúde e educação de qualidade
Fatores protetores: onde as intervenções têm mais impacto
- Ao menos um adulto de referência com vínculo afetivo seguro e consistente
- Acesso a escola de qualidade e a atividades extracurriculares significativas
- Redes de apoio comunitário — incluindo organizações sociais
- Acesso precoce a diagnóstico e tratamento quando necessário
- Condições socioeconômicas mínimas — especialmente segurança alimentar e habitacional
- Adultos que falam abertamente sobre emoções e saúde mental
O papel das organizações sociais como primeira linha
No Brasil, especialmente em territórios periféricos e municípios com cobertura insuficiente de serviços de saúde mental, organizações sociais frequentemente são a primeira, e às vezes a única, instância que percebe o sofrimento emocional de crianças e adolescentes e tem condições de oferecer alguma resposta.
Não porque devam substituir os serviços especializados, não devem, e não podem. Mas porque estão no território, conhecem as famílias, têm vínculo com as crianças e podem ser o elo que conecta o sofrimento ao cuidado.
O que organizações sociais podem fazer pela saúde mental de crianças
- Criar ambientes seguros, previsíveis e afetuosos que são, por si mesmos, protetores da saúde mental
- Capacitar a equipe para reconhecer sinais de sofrimento emocional, sem substituir a avaliação clínica
- Ter protocolo de encaminhamento para CAPSi, UBS e CREAS e conhecer os fluxos do território
- Oferecer atividades de promoção de saúde mental: arte, esporte, escuta, grupos de expressão
- Incluir saúde mental nos indicadores de resultado: monitorar bem-estar emocional, não apenas desempenho
- Articular com a escola e com os serviços de saúde: a OSC não age sozinha, age em rede
- Apoiar as famílias: a saúde mental da criança está ligada à saúde mental dos cuidadores
O que precisa mudar nas políticas públicas
Cumprir o ODS 3 no que diz respeito à saúde mental infantil brasileira exige mudanças estruturais que vão muito além do que organizações sociais ou famílias podem fazer por conta própria. São escolhas políticas que precisam de vontade e de financiamento.
O que a política pública precisa para cumprir o ODS 3 na saúde mental infantil
- Expansão urgente dos CAPSi para todos os municípios com mais de 20 mil habitantes
- Psicólogos em todas as escolas públicas, não como luxo, mas como parte da equipe de saúde escolar
- Integração efetiva entre saúde, educação e assistência social no território, com fluxos definidos e responsabilidades claras
- Financiamento específico para saúde mental infantil na saúde pública, hoje subrepresentado no orçamento federal
- Formação de professores e educadores sociais para identificação e encaminhamento de crianças com sofrimento emocional
- Campanhas nacionais de desestigmatização da saúde mental, especialmente voltadas para famílias de contextos populares
- Dados: investir em sistemas de informação que tornem a saúde mental infantil visível nas estatísticas de saúde pública
O que impede o avanço no Brasil
- Subfinanciamento crônico da saúde mental no orçamento do SUS, menos de 3% do orçamento da saúde, contra 10% recomendado pela OMS
- Estigma cultural que trata transtornos mentais como fraqueza moral ou falta de fé
- Escassez de psiquiatras infantis, concentrados nas capitais e nos serviços privados
- Desconexão entre setores: saúde, educação e assistência social raramente falam entre si no cuidado de uma mesma criança
- Instabilidade das políticas de saúde mental: avanços que dependem de vontade política são vulneráveis a mudanças de governo
Conclusão
A saúde mental de crianças e adolescentes não é uma pauta periférica do ODS 3. É um dos seus pilares mais importantes e um dos mais negligenciados no Brasil. Cada criança que chega à vida adulta sem ter tido acesso ao cuidado de que precisava é uma evidência do custo humano e econômico de uma prioridade que não foi estabelecida a tempo.
Mas o cenário não é sem esperança. O Brasil tem um sistema de saúde universal, tem CAPSi que funcionam, tem organizações sociais comprometidas, tem profissionais que trabalham com poucos recursos e muito cuidado. O que falta é escala, é integração, é financiamento e é o reconhecimento político de que a saúde mental de crianças e adolescentes é prioridade de Estado, não de governo, não de gestão, mas de Estado.
Para organizações como a Querubins, que atendem crianças em contextos de alta vulnerabilidade, o ODS 3 é uma agenda do cotidiano. É a criança que chega chorando sem saber o nome do que sente. É o adolescente que parou de falar. É a família que não sabe mais o que fazer. E é também o ambiente seguro, a escuta atenta, a atividade que libera, o adulto que está lá, que não substitui o sistema, mas que sustenta enquanto o sistema não chega.







