À primeira vista, uma organização social de contraturno escolar e o debate sobre segurança pública parecem mundos separados. De um lado, crianças aprendendo, brincando, desenvolvendo habilidades. Do outro, o problema da violência urbana: armamento, polícia, crime organizado, políticas de Estado.
Mas há uma linha direta entre os dois mundos. E Maria Alice Setubal, socióloga e doutora em psicologia da educação, a traça com clareza num artigo na Folha de S. Paulo: o sentimento de pertencimento e o reconhecimento cultural e social afastam a violência como canal de expressão para inquietações e ausências.
Essa frase merece pausa. Porque ela diz que a violência não é apenas problema de polícia, de armas, de punição. É também problema de pertencimento. De quem sente que tem lugar no mundo e de quem não sente. De quem foi reconhecido, incluído, ouvido e de quem não foi.
E se isso é verdade, então o trabalho cotidiano de uma organização como o Querubins é, também, prevenção à violência. Não porque seja nossa missão declarada. Mas porque criar pertencimento é exatamente o que fazemos.
O que os dados e as experiências mostram
Setubal apresenta evidências de que a abordagem que combina presença do Estado, fortalecimento comunitário e promoção de cidadania produz resultados concretos na redução da violência. A referência a Medellín, na Colômbia, é a mais conhecida cidade que saiu de uma das mais violentas do mundo para referência internacional em urbanismo social, com investimento em educação, mobilidade, cultura e ressignificação dos espaços públicos.
Mais próximo de nós, o Usina da Paz, do governo do Pará em Belém, anunciou resultados que impressionam: desde a implantação do programa, há cinco anos, os bairros envolvidos registraram redução média de 86% nos crimes violentos letais e intencionais. Não com mais policiamento. Com presença, com cultura, com esporte, com serviços e com o fortalecimento de quem vive no território.
O Compaz de Recife segue a mesma lógica e inspirou o governo federal a destinar recursos para replicar o modelo em dezenas de municípios brasileiros. São experiências diferentes, em contextos diferentes, mas com uma premissa comum: a violência recua quando as pessoas têm onde estar, quando são reconhecidas, quando sentem que pertencem a algo.
O sentimento de pertencimento e o reconhecimento cultural e social afastam a violência como canal de expressão para inquietações e ausências. Não é retórica, é o que as experiências mais bem-sucedidas de prevenção à violência no mundo mostram.
O que ‘pertencimento’ significa na prática
Pertencimento não é conceito abstrato. É a experiência concreta de saber que há um lugar para você, que você é esperado, reconhecido, que o que você faz importa para alguém. É a diferença entre estar num espaço e fazer parte dele.
Para crianças e adolescentes em territórios periféricos, essa experiência é mais escassa do que deveria ser. A escola frequentemente comunica, de formas explícitas e implícitas, que alguns alunos pertencem mais do que outros. O mercado de trabalho envia a mesma mensagem. O acesso à cidade, a parques, a equipamentos culturais, a espaços seguros, é desigual de formas que as crianças percebem antes de ter palavras para descrever.
Quando a Querubins cria um espaço onde uma criança é chamada pelo nome, onde seu trabalho é exibido na parede, onde um educador percebe quando ela falta e entra em contato, onde ela experimenta competência e criatividade, está criando pertencimento. Não como fim em si mesmo. Mas como a base a partir da qual tudo o mais se torna possível.
O que cria pertencimento num projeto social
- Ser chamado pelo nome e que o adulto saiba que você faltou ontem
- Ver o próprio trabalho exposto, celebrado, levado a sério
- Ter responsabilidades reais dentro do grupo, não apenas receber, mas contribuir
- Experimentar competência: ser bom em alguma coisa que importa para o grupo
- Sentir que o adulto de referência está genuinamente interessado em quem você é
- Fazer parte de algo que continua, uma história que se acumula ao longo do tempo
A aposta nas juventudes como estratégia
Setubal é específica sobre um grupo: as juventudes. A aposta nas juventudes como estratégia para a ocupação dos espaços públicos, ela escreve, é central na prevenção à violência. E não é difícil entender por quê.
Adolescentes que não têm espaço, física e simbolicamente, tendem a criar os próprios espaços. Alguns desses espaços são saudáveis: o grupo de amigos, o campeonato de bairro, o coletivo cultural, o rolê. Outros têm riscos que todos conhecemos. A diferença entre os dois caminhos raramente é questão de caráter individual, é questão de o que está disponível, de quem está presente, de o que o território oferece.
Um adolescente que tem onde ir depois da escola, e onde sente que pertence, tem um amortecedor para as pressões que os territórios vulneráveis concentram. Não é garantia de nada. Mas é proteção real, documentada, que faz diferença em trajetórias.
Juventude e violência: o que os dados mostram
- A faixa etária de 15 a 29 anos concentra a maior parte das vítimas e dos autores de homicídios no Brasil (Anuário Brasileiro de Segurança Pública)
- Jovens negros de periferias são desproporcionalmente afetados: a interseção de raça, pobreza e território é o principal preditor de vitimização
- Programas de contraturno e de atividades extracurriculares de qualidade estão entre as intervenções com maior evidência de impacto na redução de engajamento em violência entre jovens
- A ausência de atividades estruturadas no contraturno é um dos fatores de risco mais consistentemente associados ao engajamento em comportamentos de risco na adolescência
O contraturno como política de pertencimento
O contraturno escolar, a proposta central do trabalho do Querubins, não é apenas pedagógico. É territorial e é político. É a decisão de que crianças e adolescentes de um território específico vão ter onde estar, vão ser reconhecidos e vão desenvolver a experiência de pertencimento que é condição para o desenvolvimento saudável e fator de proteção contra a violência.
Setubal descreve o urbanismo social como uma abordagem que concebe as cidades com envolvimento da população e articulação entre áreas de atuação diferentes, onde as políticas públicas são implementadas de forma transversal e integrada, com escuta ativa e estabelecimento de vínculos com a comunidade. Esse é exatamente o modelo que experiências como Medellín e o Usina da Paz operacionalizam em escala.
A Querubins não opera em escala de cidade. Opera em escala de rua, de bairro, de turma. Mas opera com a mesma lógica: presença consistente no território, escuta das famílias, articulação com outros serviços, fortalecimento de vínculos e de identidade. É urbanismo social no tamanho do que uma organização pequena pode fazer e com o mesmo argumento central: o pertencimento é prevenção.
Como o trabalho da Querubins conversa com a agenda de prevenção à violência
- Presença estável no território: estamos no bairro todos os dias, com as mesmas crianças, ao longo de anos
- Ocupação do contraturno: crianças e adolescentes que chegam têm onde estar no horário de maior vulnerabilidade
- Fortalecimento de identidade e autoestima: o reconhecimento do que cada criança é capaz de fazer e de ser
- Articulação com a rede de proteção: conexão com escola, com saúde, com assistência social
- Liderança juvenil: adolescentes com papéis ativos dentro do projeto, que experienciam agência e responsabilidade
- Vínculo com a comunidade: as famílias participam, são ouvidas e fazem parte do que construímos juntos
O que o poder público e o setor privado têm a ver com isso
Setubal encerra seu argumento com um chamado claro: a prevenção à violência exige sinergias intersetoriais. O Estado, o setor privado e a sociedade civil precisam atuar de forma articulada, não cada um no seu canto, mas em colaboração intencional em torno de territórios e de populações específicas.
Para organizações sociais como a Querubins, isso tem implicações práticas. Não podemos fazer esse trabalho sozinhas e não devemos tentar. A escola precisa estar articulada. O CRAS precisa estar próximo. A prefeitura precisa entender que uma organização social que trabalha com crianças num território periférico é parte da infraestrutura de prevenção e merece ser tratada como tal, com parceria e com recursos.
Ao mesmo tempo, o setor privado e os doadores pessoas físicas precisam entender que apoiar uma organização como a Querubins não é apenas fazer o bem. É investir em prevenção, em evitar custos sociais, econômicos e humanos muito maiores no futuro. A criança que tem onde ir, que se sente pertencente e que desenvolve recursos para navegar as pressões do território representa uma economia de sofrimento que nenhum dado de custo-benefício consegue capturar por inteiro.
O que cada ator pode fazer para fortalecer o trabalho de pertencimento nos territórios
- Poder público: reconhecer OSCs territoriais como parceiras da política de prevenção, não apenas como executoras de serviços
- Empresas e fundações: financiar o trabalho estruturante de longo prazo, não apenas projetos pontuais e de visibilidade rápida
- Doadores individuais: criar vínculo recorrente com organizações que conhecem e que operam com consistência no território
- A própria comunidade: participar, cobrar, valorizar, reconhecer o projeto como bem comum do bairro
Conclusão
A violência nos territórios periféricos brasileiros não é inevitável. Não é destino. É resultado de condições específicas, de desigualdade, de ausência, de invisibilidade, que podem ser modificadas com investimento intencional e consistente.
Setubal mostra que há caminhos. Medellín, o Usina da Paz, o Compaz de Recife são provas de que pertencimento e cidadania são, de fato, políticas de segurança. Que quando as pessoas sentem que têm lugar, quando os territórios são investidos e os saberes locais reconhecidos, a violência recua.
A Querubins não é o Usina da Paz. Não tem a escala de um programa de governo. Mas tem o mesmo argumento, operado na dimensão do que é possível: uma criança que sabe que é esperada amanhã, que tem um adulto que se importa com quem ela é, que faz parte de algo maior do que ela mesma, essa criança tem pertencimento. E pertencimento, como Setubal escreve e como a experiência confirma, afasta a violência.
É simples assim. E é difícil assim. E é urgente assim.





