Como comunidades periféricas organizam cuidado coletivo com a infância

Existe um ditado africano que ganhou o mundo: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”. No Brasil, esse princípio nunca foi apenas filosofia, foi necessidade. Nas periferias urbanas, nas favelas, nos quilombos, nas periferias rurais, criar crianças sempre foi, em larga medida, um ato coletivo.

Quando a mãe precisa trabalhar dois turnos e não tem onde deixar o filho, é a vizinha que abre a porta. Quando a família atravessa uma crise, é a tia que acolhe os sobrinhos. Quando a criança não tem com quem ir à escola, é o menino mais velho da rua que leva. Quando há necessidade de comida, é o mutirão do bairro que aparece. Esse tecido de reciprocidades, muitas vezes invisível para quem olha de fora, é o que sustenta a infância em territórios que o Estado alcança de forma insuficiente e intermitente.

Este artigo é sobre esse cuidado. Sobre como as comunidades periféricas brasileiras construíram, ao longo de décadas, formas criativas e resilientes de proteger suas crianças, muitas vezes sem nome, sem financiamento e sem reconhecimento. E sobre o que podemos aprender com essas práticas para pensar políticas, projetos e intervenções que realmente cheguem onde precisam chegar.

O que é cuidado coletivo e por que ele é necessário nas periferias

Cuidado coletivo é o conjunto de práticas, arranjos e relações por meio dos quais uma comunidade compartilha a responsabilidade pela proteção, alimentação, educação e desenvolvimento das crianças que vivem nela. Ele existe em oposição, ou complementação, ao modelo do cuidado nuclear, centrado exclusivamente na família biológica imediata.

Nas periferias brasileiras, o cuidado coletivo não é uma escolha ideológica: é uma resposta a condições estruturais. Quando a renda familiar é insuficiente para pagar creche, quando o trabalho informal não tem folga combinada, quando a moradia é compartilhada e a rua é o quintal, criar crianças exige mobilizar o entorno. A comunidade se torna, por necessidade, extensão da família.

Nas periferias, a infância não é criada apenas pelos pais. Ela é criada pelo bairro, pela voz da vizinha, pela mão da avó, pelo olhar do tio, pela porta aberta da associação. Isso não é precariedade: é sabedoria coletiva.

Esse modelo não é exclusivo das periferias urbanas contemporâneas. Ele tem raízes profundas na história brasileira, nas comunidades quilombolas, nas aldeias indígenas, nas famílias extensas do campo, e nas tradições africanas e indígenas que formaram a base cultural do país. Reconhecê-lo como forma legítima e sofisticada de organização social é o primeiro passo para valorizá-lo e fortalecê-lo.

As raízes históricas e culturais do cuidado coletivo no Brasil

O Brasil foi construído sobre culturas em que o cuidado coletivo com a infância é norma, não exceção. Nas sociedades indígenas, a criança é filha não apenas dos pais biológicos, mas de toda a aldeia, responsabilidade e afeto são distribuídos por toda a comunidade. Nas culturas africanas que chegaram ao Brasil com a diáspora forçada da escravidão, a noção de família ampliada e de responsabilidade coletiva com os mais jovens é estrutural.

Essas tradições sobreviveram à colonização, à escravidão, à urbanização e à modernização, muitas vezes de forma subterrânea, sem reconhecimento nem nomenclatura acadêmica. Os terreiros de candomblé e umbanda, por exemplo, funcionam há séculos como redes de apoio comunitário que incluem o cuidado de crianças. As comunidades quilombolas preservam até hoje práticas de criação coletiva. Os mutirões rurais, em que toda a comunidade trabalha junta para construir, colher ou celebrar, têm como corolário o cuidado compartilhado das crianças enquanto os adultos trabalham.

A urbanização e a transformação do cuidado coletivo

Com a urbanização acelerada do Brasil ao longo do século XX, especialmente a migração campo-cidade que formou as periferias das grandes metrópoles, essas práticas foram transplantadas para novos contextos e, em muitos casos, adaptadas de formas criativas. A vizinhança densa das favelas e periferias urbanas criou condições para que formas de cuidado coletivo se reconstituíssem: a rua como espaço compartilhado, a porta sempre aberta, a criança que “é de todos”.

Formas de cuidado coletivo: da vizinhança às organizações

O cuidado coletivo com a infância nas periferias se manifesta em múltiplos formatos, alguns informais e invisíveis, outros formalizados e reconhecidos. A tabela abaixo apresenta um mapa dessas formas, do mais cotidiano ao mais estruturado:

Forma de cuidado coletivoComo funciona na práticaO que protege e desenvolve
Rede de vizinhançaVizinhos que guardam filhos uns dos outros, avisam sobre situações de risco, compartilham refeições e recursos em momentos de criseSupervisão informal, segurança emocional, senso de pertencimento territorial
Famílias ampliadasAvós, tios, madrinhas e padrinhos que compartilham o cuidado cotidiano com pais e mães sobrecarregadosVínculos afetivos seguros, referências adultas diversas, continuidade do cuidado
Igrejas e comunidades religiosasGrupos de jovens, catequese, pastorais da criança, cestas básicas, acompanhamento de famíliasRede de apoio material e emocional, pertencimento comunitário, referências morais e espirituais
Associações de moradores e coletivos culturaisFestas, mutirões, projetos culturais, articulação com o poder público, defesa de direitosIdentidade territorial, organização política, cultura como resistência
OSCs e projetos sociaisContraturno escolar, acompanhamento psicossocial, oficinas de arte, esporte e cultura, apoio às famíliasProteção integral, desenvolvimento socioemocional, ampliação de referências adultas
Mães e pais comunitáriosAdultos reconhecidos pela comunidade como referência de cuidado — a “tia do bairro” que todo mundo conheceEscuta, acolhimento informal, mediação de conflitos, referência emocional para crianças em risco

O que chama atenção nesse mapa é a riqueza e a diversidade dessas formas de cuidado e o fato de que a maioria delas opera sem financiamento, sem reconhecimento formal e sem qualquer proteção institucional. Elas existem porque as pessoas precisam delas e porque as comunidades encontraram formas de se organizar na ausência do Estado.

O papel das mulheres, especialmente das avós, na sustentação do cuidado

Qualquer análise honesta do cuidado coletivo com a infância nas periferias precisa nomear quem, na prática, carrega o peso maior dessa responsabilidade: as mulheres. E, dentro delas, de forma especialmente expressiva, as avós.

Em um contexto de alta prevalência de famílias monoparentais chefiadas por mulheres, de trabalho informal sem direitos, de ausência de creches públicas suficientes e de fragilidade dos vínculos paternos, são as avós que frequentemente assumem o cuidado cotidiano dos netos, acordando cedo, preparando o café, levando à escola, esperando na saída, acompanhando as doenças, fazendo a lição.

Esse trabalho é invisível nas estatísticas econômicas. Não gera salário, não compõe o PIB, não aparece nos indicadores de emprego. Mas sem ele, o mercado de trabalho formal das filhas e noras não funcionaria — e a infância de milhões de crianças seria radicalmente diferente.

Perfil das avós cuidadoras no Brasil

Segundo o IBGE, mais de 5 milhões de crianças no Brasil vivem sob a guarda ou cuidado principal de avós

  • A maioria são mulheres negras, com baixa escolaridade, que já se aposentaram ou nunca se formalizaram no mercado de trabalho
  • Muitas assumem o cuidado após situações de ruptura familiar: morte dos pais, aprisionamento, uso de drogas, violência doméstica
  • Em grande parte dos casos, esse cuidado não é formalizado juridicamente, o que pode gerar dificuldades no acesso a serviços de saúde, educação e benefícios sociais
  • O cuidado exercido pelas avós raramente é reconhecido por políticas públicas específicas de apoio e acompanhamento

Além das avós, outras figuras femininas têm papel central no cuidado coletivo periférico: as chamadas “mães sociais” ou “tias do bairro”, mulheres reconhecidas pela comunidade como referências afetivas e práticas, para quem crianças e famílias recorrem em situações de dificuldade. Essas figuras raramente aparecem nos mapeamentos formais de proteção social, mas são pilares invisíveis da rede de cuidado.

Cuidado coletivo e vulnerabilidade: o que fragiliza essas redes

As redes de cuidado coletivo nas periferias são resilientes, mas não são invulneráveis. Vários fatores podem fragilizá-las ou rompê-las, com consequências sérias para as crianças que delas dependem.

Violência e insegurança territorial

A violência urbana, especialmente a presença do crime organizado em determinados territórios, afeta diretamente as práticas de cuidado coletivo. Quando a rua deixa de ser um espaço seguro, a criança fica dentro de casa. Quando as fronteiras entre facções dividem o bairro, a vizinhança que cuidava coletivamente se fragmenta. Quando os jovens são recrutados ou mortos, o tecido comunitário se desfaz.

Precarização do trabalho e aumento da jornada

A intensificação do trabalho informal e a expansão das plataformas de trabalho por demanda (aplicativos de entrega, transporte, limpeza) aumentaram a jornada de trabalho de muitas famílias periféricas, com impacto direto no tempo disponível para cuidar. Quando pai e mãe trabalham doze, catorze horas por dia, o cuidado recai sobre avós já idosas, sobre irmãos mais velhos ou sobre ninguém.

Remoções e gentrificação

A remoção de comunidades, seja por obras públicas, seja pela pressão do mercado imobiliário, desfaz redes de cuidado construídas ao longo de décadas. Quando uma família é removida para um conjunto habitacional em outro bairro, ela perde não apenas a moradia: perde a vizinha de confiança, a creche conhecida, a avó que morava a dois quarteirões, a rede invisível que sustentava sua vida cotidiana.

Fragilização dos vínculos familiares

O uso de álcool e drogas, a violência doméstica, o aprisionamento em massa de homens negros e a instabilidade dos arranjos familiares são fatores que fragilizam os núcleos familiares e sobrecarregam as redes de cuidado coletivo ao redor deles. Quando a família nuclear entra em crise, é a comunidade que precisa absorver o cuidado, muitas vezes sem recursos, sem suporte e sem reconhecimento.

Fatores que fragilizam redes de cuidado coletivo periférico

  • Violência urbana que restringe o uso do espaço público e fragmenta a vizinhança
  • Precarização do trabalho e aumento da jornada, reduzindo o tempo disponível para cuidar
  • Remoções e deslocamentos forçados que destroem redes de vizinhança consolidadas
  • Envelhecimento das avós cuidadoras sem suporte de saúde e social adequado
  • Ausência do Estado (creches, equipamentos de lazer, serviços de saúde) que sobrecarrega as redes informais
  • Adoecimento mental e uso de substâncias que fragilizam famílias e sobrecarregam as redes ao redor

O risco da invisibilidade: quando o cuidado coletivo não é reconhecido

Um dos maiores riscos para as redes de cuidado coletivo nas periferias é justamente sua invisibilidade para as políticas públicas. Por funcionarem de forma informal, sem contratos, sem registros e sem financiamento, elas não aparecem nos mapas institucionais de proteção social e, portanto, não recebem apoio.

Pior: em alguns casos, essas formas de organização comunitária são vistas com desconfiança pelo Estado. A avó que cria os netos sem guarda formalizada pode ter dificuldades para matricular as crianças na escola ou acessar serviços de saúde. O grupo de mães que organiza um cuidado coletivo informal pode ser notificado por não ter CNPJ. A creche comunitária que funciona há anos na sala da dona Maria pode ser fechada por não atender às normas de vigilância sanitária.

Essa tensão entre o cuidado que existe e as exigências formais que não reconhecem esse cuidado é uma das mais cruéis contradições do sistema de proteção social brasileiro. Ela pune justamente quem está fazendo o que o Estado não fez — cuidar.

Como OSCs e políticas públicas podem fortalecer essas redes

A resposta correta às redes de cuidado coletivo periférico não é substituí-las, é fortalecê-las. Isso exige uma mudança de postura: em vez de chegar com modelos prontos, o poder público e as organizações sociais precisam começar por ouvir, mapear e reconhecer o que já existe.

Reconhecimento e formalização sem engessamento

Políticas que reconhecem e apoiam avós cuidadoras, como o benefício eventual do SUAS para famílias em situação de vulnerabilidade, ou programas específicos de apoio a famílias extensas — são passos importantes. Mas o reconhecimento não pode vir acompanhado de exigências burocráticas que as famílias não têm condições de cumprir. A formalização precisa ser facilitadora, não excludente.

Creches comunitárias como parceiras, não concorrentes

As creches comunitárias, muitas delas geridas por mulheres da própria comunidade, em espaços improvisados, com recursos mínimos, são uma das expressões mais concretas do cuidado coletivo periférico. Em vez de serem fechadas por não cumprirem padrões pensados para equipamentos públicos de grande porte, elas deveriam ser reconhecidas, apoiadas e integradas ao sistema de educação infantil — com repasse de recursos, formação de equipe e adequação progressiva de estrutura.

Articulação de redes territoriais

OSCs que atuam em contraturno escolar, serviços do SUAS, unidades de saúde, escolas e lideranças comunitárias, quando articulados em torno de objetivos comuns — formam uma rede de proteção muito mais robusta do que qualquer um desses atores consegue sozinho. Essa articulação territorial não acontece espontaneamente: exige investimento, tempo e liderança. Mas quando funciona, é a forma mais eficaz de garantir que nenhuma criança caia nas brechas entre os serviços.

Como OSCs podem fortalecer o cuidado coletivo sem substituí-lo

  • Mapear as redes de cuidado informal no território antes de planejar intervenções
  • Incluir avós, tias e lideranças comunitárias como parceiras, não apenas como beneficiárias
  • Oferecer suporte às figuras de cuidado (grupos de apoio, formação, atenção à saúde mental)
  • Articular com CRAS, escola e unidade de saúde para garantir acesso das famílias cuidadoras a serviços
  • Documentar e valorizar as práticas de cuidado coletivo existentes no território
  • Apoiar a formalização de arranjos de cuidado quando solicitado, sem impor burocracia
  • Criar espaços de encontro entre cuidadores: rodas de conversa, grupos de mães e avós, encontros comunitários

O que as políticas públicas precisam para reconhecer o cuidado coletivo

  • Ampliar o cadastro de avós e famílias extensas cuidadoras no CadÚnico e garantir acesso a benefícios
  • Criar mecanismo de reconhecimento e apoio a creches comunitárias informais
  • Incluir o cuidado não remunerado nas estatísticas e nos diagnósticos territoriais
  • Financiar organizações de base comunitária com flexibilidade para custos operacionais
  • Proteger territórios periféricos de remoções que destroem redes de cuidado consolidadas
  • Ampliar a oferta de creches públicas em territórios de alta vulnerabilidade

Conclusão

As periferias brasileiras não estão esperando que alguém chegue para ensinar como cuidar de suas crianças. Elas já sabem e já fazem, há décadas, com criatividade, com afeto e com uma resiliência que nenhum manual de políticas públicas conseguiu capturar completamente.

O cuidado coletivo com a infância nas periferias é um patrimônio cultural, social e político. É expressão de uma visão de mundo em que a criança não pertence apenas aos pais, mas à comunidade e em que o bem-estar de cada um é responsabilidade de todos. Essa visão não é romantizada: ela é construída dia a dia, entre dificuldades reais, pela força de mulheres, avós, vizinhas e lideranças que fazem o que o Estado não faz.

O papel das organizações sociais, do poder público e de quem pensa políticas para a infância é reconhecer esse cuidado, aprender com ele e fortalecê-lo, nunca substituí-lo por modelos importados de outros contextos. Porque a melhor rede de proteção para uma criança periférica não é aquela que vem de fora: é a que já existe, tecida por mãos que conhecem o nome dela.