Em outubro de 2025, Maria Alice Setubal, socióloga, doutora em psicologia da educação e presidente do Conselho Curador da TV Cultura, publicou na Folha de S. Paulo um texto que merece ser lido por qualquer pessoa que trabalha com educação e cultura no Brasil. O argumento central é ao mesmo tempo simples e profundo: a cultura não é ornamento da vida social. É o que faz a mediação entre as pessoas e o sentido, entre o que vivemos e o que conseguimos compreender, nomear e compartilhar com os outros.
Setubal cita um dado que para qualquer educador deveria ser motivo de reflexão: 81% dos brasileiros entrevistados pelo Observatório da Fundação Itaú consideram a cultura um vínculo fundamental na relação com a comunidade. E ela vai além da estatística. A superficialidade das discussões contemporâneas, escreve, “parece ser um sintoma da pobreza de referências culturais, que traz como consequência uma baixa vinculação consigo mesmo, com o outro e com o entorno.”
Quem trabalha com crianças em territórios periféricos de Belo Horizonte lê esse diagnóstico e reconhece algo que vê todo dia. Este texto é uma tentativa de trazer esse argumento para a nossa realidade, a da Associação Querubins e das crianças que chegam até nós.
O que a criança de periferia experimenta quando chega ao contraturno
A criança que chega ao Querubins frequentemente vem de um dia longo. Vem da escola onde não há espaço para o que não é avaliado. Vem de uma casa onde o volume do cotidiano (trabalho dos adultos, contas, incerteza) não deixa muito espaço para histórias, para músicas, para conversa sobre o que se sente. Vem de um bairro onde não há biblioteca a dois quarteirões, onde o acesso à cultura que a cidade produz exige uma viagem de ônibus que a família frequentemente não pode fazer.
Isso não significa que essa criança não tem cultura. Tem: rica, diversa, produzida no cotidiano: o funk que toca na comunidade, as histórias que a avó conta, as brincadeiras inventadas na rua, o grafite que alguém fez no muro da esquina. A cultura periférica é real e é vibrante. O que essa criança frequentemente não tem é o espaço para explorar, aprofundar e expandir essa cultura, nem o acesso à produção cultural que a cidade concentra nos bairros com mais recursos.
É exatamente esse espaço que uma organização social pode criar. E que o Querubins tenta criar, todos os dias, com o que tem.
Cultura como construção de sentido, não como entretenimento
Setubal cita o psicanalista Leopold Nosek, que fala da ausência de construção de narrativas como um problema de época: “Narrativas, desde os tempos mais remotos, trazem aos seres humanos possibilidades de identificações, de organizar as incertezas, de apontar caminhos e dar um sentido à vida. Seu declínio deixa um enorme vazio. Há uma perda da capacidade de sonhar.”
Na prática do contraturno, isso tem nome concreto. É a criança que, ao escrever sua primeira história, descobre que tem algo a dizer. Que, ao fotografar o próprio bairro, passa a enxergá-lo de outra forma, não apenas como o lugar onde os problemas acontecem, mas como lugar de beleza, de memória e de vida que merece ser registrada. Que, ao participar de uma roda de música ou de uma oficina de dança, aprende que sua voz existe e que pode ocupar um espaço.
Isso não é entretenimento. É o que Setubal chama de mediação cultural: a construção do vínculo entre o sujeito e o mundo, entre o que cada um é e o que é possível ser, entre o cotidiano imediato e os horizontes que a arte e a cultura abrem.
O território como espaço de identidade e de possibilidade
Um dos pontos mais relevantes do artigo para quem trabalha em projetos sociais é a centralidade do território. “O território representa um papel fundamental”, escreve Setubal, “pois abriga as identidades locais e, ao mesmo tempo, é o espaço de todas as histórias do mundo. É lugar de implementação das políticas públicas, das manifestações de valores, costumes e comportamentos.”
O Querubins existe num território específico de Belo Horizonte, com sua história, seus conflitos, sua beleza própria e suas precariedades reais. Trabalhar com cultura nesse território não significa importar cultura de fora para crianças que “não têm”. Significa reconhecer e valorizar o que já existe e criar pontes para o que ainda não chegou.
Quando crianças do Querubins fotografam a própria rua, quando escrevem sobre a própria vida, quando aprendem capoeira ou percussão ou dança, estão fazendo exatamente o que Setubal descreve: construindo narrativas que organizam a experiência, fortalecem a identidade e criam vínculo com a coletividade.
O que atividades culturais desenvolvem em crianças em contextos de vulnerabilidade
- Identidade e pertencimento: a criança que vê a própria história valorizada aprende que existe e que importa
- Narrativa e sentido: a capacidade de contar o que viveu e de dar forma ao que sente
- Vínculo comunitário: arte feita em grupo constrói relações que persistem além das atividades
- Autoestima e senso de competência: criar algo próprio (uma foto, uma história, uma coreografia) é prova concreta de que se é capaz
- Acesso a horizontes: o contato com diferentes linguagens artísticas expande o que a criança pode imaginar para si mesma
Cultura como proteção
Há uma dimensão que o artigo de Setubal não nomeia explicitamente, mas que qualquer educador social reconhece: a cultura como fator de proteção. A criança que tem onde ir depois da escola, que está num espaço onde sua criatividade é reconhecida, que tem adultos que valorizam o que ela produz, essa criança tem algo que vai com ela para além do projeto.
A pesquisa sobre desenvolvimento infantil e sobre prevenção de vulnerabilidades mostra, de forma consistente, que atividades culturais e artísticas estão entre os fatores protetores mais robustos para crianças em contextos de risco. Não porque a arte resolve a pobreza, não resolve. Mas porque dá a crianças que crescem em contextos de alta adversidade algo que a adversidade não pode facilmente tirar: uma relação com o próprio potencial criativo e com a comunidade ao redor.
Setubal fala de um dado da pesquisa recente da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em que a cultura aparece como fator importante na vida dos paulistanos. Mas qualquer educador que trabalha em periferia sabe que esse dado tem uma face específica nos territórios de vulnerabilidade: a cultura não é apenas importante para a qualidade de vida, é, muitas vezes, o que mantém crianças conectadas a si mesmas e ao mundo numa fase em que o risco de desconexão é muito alto.
O que a pesquisa mostra sobre cultura e proteção na infância
- 81% dos brasileiros consideram a cultura um vínculo fundamental com a comunidade (Observatório Fundação Itaú, 2025)
- Crianças que participam de atividades artísticas regulares têm melhores indicadores de saúde mental, desempenho escolar e vínculos relacionais
- Programas de contraturno com ênfase em atividades culturais reduzem indicadores de evasão escolar e de exposição a situações de risco
- O senso de pertencimento, fortalecido pela cultura, é um dos preditores mais robustos de saúde mental na infância e na adolescência
O que fazemos é político
Setubal encerra seu texto com uma referência ao pensador martinicano Édouard Glissant e sua “poética da relação”, a ideia de que o imaginário e a troca estão em relação constante, e que é nessa relação que se encontram novos sentidos e possibilidades de estar no mundo. “Em tempos tão desafiadores e conturbados”, escreve ela, “podemos encontrar nessas relações novos sentidos e possibilidades de estar no mundo.”
Para uma organização como o Querubins, trabalhar com cultura não é escolha estética. É posição política sobre quem tem direito de produzir cultura, de acessá-la, de ter a própria história reconhecida como digna de ser contada. É a afirmação, concreta e cotidiana, de que crianças de periferia não são apenas receptoras da cultura que outros produzem em outros lugares: são produtoras, são narradoras, são autoras da própria história.
Em tempos de superficialidade e de individualismo, os tempos que Setubal descreve, talvez o trabalho mais importante que uma organização social pode fazer seja exatamente esse: criar espaço para que crianças aprendam a construir narrativas sobre quem são e sobre o mundo em que vivem. Com todas as linguagens disponíveis. Com toda a riqueza do território onde habitam. E com a certeza de que o que elas têm a dizer importa.
Como o Querubins pratica educação e cultura de forma integrada
- Atividades artísticas e culturais como parte central do contraturno, não como extracurricular, mas como parte do desenvolvimento integral
- Valorização da cultura do território: as histórias, as músicas, as formas de ser do bairro como ponto de partida, não de chegada
- Criação de espaços onde a produção das crianças é exibida, celebrada e compartilhada com a comunidade
- Formação de educadores para integrar expressão artística ao trabalho socioeducativo
- Parceria com equipamentos culturais da cidade, levando crianças do território à cultura que a cidade produz e trazendo cultura ao território
Conclusão
O artigo de Maria Alice Setubal fala de um momento de crise de sentido, de um tempo em que a superficialidade e o individualismo produzem um vazio de vínculos e de narrativas. E aponta a cultura como mediadora possível: não a cultura como produto de consumo, mas como experiência de encontro, de construção coletiva de significado, de pertencimento a algo maior do que o próprio eu.
No Querubins, esse argumento encontra chão concreto. Cada vez que uma criança pega um pincel, uma câmera, uma fantasia, um instrumento e usa para criar algo que é dela, que conta algo sobre o mundo que ela vê e sobre quem ela é, está acontecendo exatamente o que Setubal descreve. Uma mediação. Um vínculo. Uma narrativa que organiza a vida e que abre possibilidades.
É trabalho simples na forma. É profundo nos efeitos. E é, precisamos dizer, político na sua essência: porque afirmar que crianças de periferia têm algo a criar, a contar e a compartilhar é, ainda em 2026, um ato de resistência.
Leia o artigo de Maria Alice Setubal completo aqui






