Feminicídio e filhos: o impacto sobre crianças que perdem a mãe para a violência


Nota importante ao leitor
Este artigo aborda feminicídio e seus impactos sobre crianças. O conteúdo é destinado a educadores, profissionais e famílias que apoiam crianças nessa situação.
Se você está em situação de violência doméstica, ligue para o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) — gratuito e sigiloso, 24 horas. Em risco imediato, ligue 190.
O CVV atende 24 horas pelo 188 ou cvv.org.br para crianças, adolescentes ou adultos em sofrimento.

Ele tinha seis anos quando acordou com barulho na madrugada. Depois ficou quieto. Quando a avó chegou pela manhã, ele estava sentado no corredor, com o joelho no peito, sem conseguir falar. Sua mãe havia sido morta pelo pai durante a noite. Ele tinha ouvido.

Essa criança existe aos milhares no Brasil. O país registra, em média, mais de 1.400 feminicídios por ano e cada uma dessas mortes deixa filhos. Crianças que perderam a mãe para o mesmo homem que em muitos casos é o pai delas. Que frequentemente presenciaram a violência ou ouviram o que aconteceu. Que acordaram num mundo completamente diferente e que raramente aparecem nas estatísticas, nas notícias ou nas políticas que respondem ao feminicídio.

Este artigo é sobre essas crianças. Sobre o que vivem, o que carregam e o que precisam de adultos que às vezes também estão em sofrimento. E sobre o que educadores e organizações sociais podem fazer para ver essa criança, que frequentemente se torna invisível exatamente quando mais precisa ser vista.

O feminicídio e os filhos: uma crise dentro da crise

O Brasil tem uma das maiores taxas de feminicídio do mundo. E cada morte é, também, uma crise na vida de filhos que foram deixados para trás, crianças que perdem a mãe de forma violenta, abrupta e frequentemente em circunstâncias que envolvem o pai como agressor.

Essas crianças existem numa zona de invisibilidade específica: a atenção do sistema vai para a vítima (a mãe) e, frequentemente, para o agressor (o processo criminal do pai). Os filhos ficam no meio, cuidados por avós, tias, irmãos mais velhos ou pelo próprio sistema de acolhimento, quando não há família disponível. Raramente são mencionados nas reportagens sobre o caso. Raramente têm voz no processo judicial. Raramente recebem suporte psicológico especializado de forma sistemática.

Quando um feminicídio acontece, os filhos não são mencionados nas manchetes. São mencionados como parte do retrato da vítima; ‘deixou dois filhos’. Mas eles não ficaram apenas sem mãe. Ficaram com a cena. Com o medo. Com o pai preso. Com a vida partida ao meio. E raramente alguém pergunta como eles estão.

O que a criança pode ter vivido antes

Na maioria dos feminicídios, a morte não acontece do nada. É o desfecho de um padrão de violência doméstica que frequentemente se instalou ao longo de meses ou anos e que as crianças da família viveram de formas diferentes, mas raramente como espectadoras neutras.

  • Crianças que viram ou ouviram agressões físicas à mãe, que configuram exposição a violência doméstica, com efeitos documentados sobre o desenvolvimento
  • Crianças que foram alvo direto de violência do agressor, especialmente nos casos em que a violência escalou para incluir os filhos
  • Crianças que foram usadas como instrumento de controle: ameaças envolvendo os filhos como forma de coagir a mãe
  • Crianças que estavam presentes no momento do feminicídio, que vivenciaram o episódio diretamente
  • Crianças que encontraram a mãe depois ou que ouviram, como o menino de seis anos da abertura

Cada uma dessas formas de exposição tem impacto específico no desenvolvimento e a criança que chega ao educador ou à organização social após um feminicídio pode carregar não apenas o luto pela morte, mas um histórico de trauma que precede a morte.

O trauma do luto por feminicídio

O luto por feminicídio é diferente de outros lutos e mais complexo do que o luto por morte natural. Tem características específicas que o tornam mais difícil de processar, especialmente para crianças:

Morte violenta e abrupta

A morte violenta não tem preparação. Não há despedida, não há gradualidade, não há tempo para que o sistema nervoso da criança se prepare para uma perda que estava chegando. A abruptura do feminicídio produz um choque que pode se manifestar como torpor, como negação intensa ou como reativação de respostas de sobrevivência que parecem deslocadas para quem observa de fora.

O agressor é o pai

Na maioria dos feminicídios de parceiro íntimo, o agressor é o pai biológico das crianças. Isso cria uma situação de extrema complexidade emocional: a criança perdeu a mãe para o pai. Pode amar o pai, ou ter medo dele, ou as duas coisas. Pode sentir raiva do pai e também saudade. Pode se sentir traída por ambos, ou pode querer proteger a imagem do pai por razões que têm a ver com lealdade e com a necessidade de não perder ambos os pais ao mesmo tempo.

Estigma e silêncio comunitário

O feminicídio frequentemente acontece em contextos comunitários onde as pessoas sabiam, sobre a violência, sobre as ameaças, sobre a situação da família. Depois da morte, há um silêncio que pode ser resultado de constrangimento, de medo do agressor (ou de sua família) ou de um código comunitário que não sabe como nomear o que aconteceu. Esse silêncio ao redor é especialmente prejudicial para a criança, que precisa poder falar sobre o que viveu e sobre quem perdeu.

Quem cuida dessas crianças e os desafios

Após um feminicídio, as crianças frequentemente ficam sob cuidado de avós maternas, tias, irmãos mais velhos ou, quando não há família disponível, do sistema de acolhimento. Esse cuidador também está em luto (muitas vezes perdeu a filha, a irmã, a sobrinha) e precisa ao mesmo tempo cuidar de si mesmo e de crianças em sofrimento intenso.

A situação é particularmente delicada quando o cuidador é a família paterna, que pode ter lealdades conflitantes, que pode defender ou minimizar o que o pai fez, e que coloca as crianças numa posição de conflito de lealdade ainda mais intensa.

Desafios específicos de quem assume o cuidado após feminicídio

  • Luto próprio não processado: cuidar de crianças em crise enquanto também está em crise
  • Questões legais urgentes: guarda, documentos, benefícios, que precisam ser resolvidas no momento de maior desorganização
  • Crianças com comportamentos reativos ao trauma, que podem ser difíceis de manejar sem suporte
  • Pressão financeira: uma família que assume crianças de uma hora para outra sem planejamento
  • Exposição à mídia e às redes sociais, que frequentemente cobrem o caso de forma que revitimiza

O conflito de lealdade: amar a mãe e ter o pai como agressor

Um dos aspectos mais complexos da situação de filhos de feminicídio é o conflito de lealdade: a impossibilidade de amar um dos pais sem trair o outro. Amar o pai que matou a mãe parece traição. Odiar o pai que é também figura de apego parece impossível. E frequentemente, o que a criança experimenta é as duas coisas ao mesmo tempo, amor, raiva, saudade, medo, confusão, sem ter nome para isso e sem ter adulto disponível para ajudá-la a navegar.

Crianças nessa situação podem apresentar comportamentos que parecem contraditórios: defender o pai publicamente enquanto tem pesadelos com ele, ou recusar qualquer lembrança da mãe porque é doloroso demais. Esses comportamentos não são sinais de que a criança está bem ou de que superou — são formas de sobreviver a algo para o qual não há preparação possível.

O que a Lei Henry Borel trouxe para essas crianças

A Lei Henry Borel (Lei 14.344/2022) incluiu, entre suas disposições, obrigações específicas do Estado em relação a filhos de vítimas de feminicídio: acompanhamento psicossocial, proteção frente ao agressor e acesso prioritário a serviços. Quatro anos após a lei, a implementação ainda é inconsistente, muitos municípios não têm o aparato necessário para identificar e acompanhar essas crianças de forma sistemática.

Na prática, a maioria das crianças que perde a mãe para feminicídio não recebe suporte especializado automaticamente, depende de que alguém do sistema (escola, CRAS, OSC) a identifique e a encaminhe ativamente.

Sinais que educadores devem observar

Crianças que perderam a mãe para violência podem apresentar reações muito diferentes, algumas ficam entorpecidas, outras ficam agitadas, algumas parecem “bem demais” (o que pode ser dissociação). Não há um padrão único, mas há sinais que educadores devem observar:

Sinais que educadores devem observar em crianças após feminicídio

  • Entorpecimento emocional: a criança que não chora, que não fala, que parece não sentir nada
  • Agitação e hipervigilância: sempre em alerta, assustada com barulhos, dificuldade de se concentrar
  • Pesadelos relatados ou sono muito perturbado
  • Regressão: comportamentos de fase anterior, urinar na cama, falar como bebê, não querer ficar sozinha
  • Evitação de tudo que lembra a mãe ou ao contrário, busca compulsiva por objetos e memórias
  • Questionamentos sobre o pai: onde está, se vai voltar, se a criança vai ser levada por ele
  • Culpa expressa ou implícita: a criança que acha que poderia ter feito algo para evitar

O que ajuda e com qual cuidado

Não há protocolo simples para apoiar crianças que viveram feminicídio. Mas há princípios que orientam o que ajuda e o que pode prejudicar.

O que ajuda

  • Presença estável e previsível: o adulto que aparece, que está disponível, que não some, que oferece o que a criança perdeu na forma mais fundamental
  • Permissão para falar e para não falar: a criança que não quer falar sobre o que aconteceu não deve ser pressionada, mas deve saber que o adulto está disponível quando quiser
  • Nomear o que aconteceu com honestidade adequada à faixa etária: crianças que não recebem explicação preenchem o vazio com fantasias frequentemente piores que a realidade
  • Rotina e previsibilidade: que restabelece alguma sensação de controle num mundo que perdeu toda a previsibilidade
  • Apoio psicológico especializado em trauma: que é diferente de apoio psicológico geral, exige profissional com formação específica

O que pode prejudicar sem intenção

  • Forçar a falar antes que a criança esteja pronta
  • Minimizar: ‘você precisa ser forte’, ‘sua mãe está num lugar melhor’
  • Fazer perguntas sobre o crime em vez de sobre a criança
  • Expor a cobertura de mídia sobre o caso sem mediação adulta
  • Colocar a criança em posição de ter que escolher entre lembrar a mãe e conviver com a família paterna
  • Deixar questões sobre o pai sem resposta, a incerteza frequentemente é pior do que uma resposta honesta
  • O papel de organizações sociais

Organizações sociais que atendem crianças em contextos de vulnerabilidade inevitavelmente encontram, ao longo do tempo, crianças cujas mães foram vítimas de feminicídio. Identificar essa criança e criar condições de cuidado adequado é uma das responsabilidades mais exigentes, e mais importantes, que uma organização pode ter.

O que organizações sociais podem fazer

  • Identificar: manter atenção a crianças cujos cadastros revelam perda recente da mãe por violência e perguntar com cuidado
  • Acolher sem pressionar: criar espaço de presença sem exigir que a criança processe em tempo determinado
  • Articular com a rede: encaminhar para suporte psicológico especializado em trauma, para CRAS/CREAS, para Defensoria quando há questões de guarda
  • Apoiar quem cuida: oferecer atenção também ao cuidador, que frequentemente está em crise
  • Proteger da revitimização: não pedir que a criança conte a história repetidamente para diferentes pessoas da equipe
  • Ter protocolo: quem identifica, quem acolhe, quem encaminha, de forma que a criança não precise contar para todo mundo

Recursos de apoio

  • Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, para situações de violência doméstica e orientação
  • CVV (188): para crianças, adolescentes ou adultos em sofrimento emocional intenso
  • CREAS: para acompanhamento de crianças em situação de violação de direitos
  • Conselho Tutelar: para garantia dos direitos das crianças, guarda, proteção, acesso a serviços
  • Defensoria Pública: para questões legais de guarda e acesso aos benefícios previstos na Lei Henry Borel

Conclusão

Filhos de vítimas de feminicídio são, eles mesmos, vítimas. Não apenas da perda da mãe, mas da violência que presenciaram ou ouviram, do medo que carregaram antes, da ruptura total da vida que aconteceu sem aviso. E são vítimas que raramente aparecem nas respostas institucionais ao feminicídio, que focam na vítima adulta e, quando chegam aos filhos, frequentemente já é tarde.

Para organizações sociais que trabalham com crianças em contextos de vulnerabilidade, essa é uma das situações mais exigentes que podem encontrar. Não há respostas fáceis, não há protocolo que resolva, não há prazo para que a criança “supere”. Há presença, a disposição de estar com a criança no que é muito difícil, sem fugir do que é pesado, sem forçar que ela seja o que ainda não pode ser.

O menino de seis anos sentado no corredor com o joelho no peito, sem conseguir falar, ele precisa de adultos que consigam ficar com ele naquele silêncio. Que não peçam que ele fale antes de estar pronto. Que não fujam do peso do que ele carrega. Que estejam lá, amanhã, e depois de amanhã, e nos próximos anos, enquanto ele aprende, muito devagar, que o mundo ainda tem pessoas seguras nele.