Ela chegava ao projeto todo dia no horário do almoço. Não por acidente, porque era a única refeição garantida do dia. Em casa, o café da manhã dependia de o pai ter trabalhado. O jantar dependia da sorte. A menina tinha nove anos, tirava notas baixas, ficava dormindo na cadeira depois de comer e explodia em birras que a professora interpretava como comportamento. Ninguém havia perguntado se ela havia comido.
A fome não acontece apenas em países de conflito ou em catástrofes naturais. Acontece em apartamentos de periferia urbana onde a geladeira está vazia no fim do mês. Em casas onde a mãe come menos para que os filhos comam mais. Em crianças que vão para a escola sem café da manhã e tentam aprender com um cérebro que não tem o combustível de que precisa.
O ODS 2 — Fome Zero e Agricultura Sustentável estabelece como meta erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável até 2030. No Brasil, esse objetivo tem uma face infantil urgente: a insegurança alimentar afeta milhões de crianças e produz impactos sobre o desenvolvimento que vão muito além do estômago vazio.
Este artigo explora o que é insegurança alimentar, o que os dados mostram sobre sua prevalência no Brasil, como ela afeta o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças em cada fase da vida e o que políticas públicas e organizações sociais podem fazer para enfrentá-la.
O ODS 2 e o que ele significa para o Brasil
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 2 estabelece metas ambiciosas: até 2030, acabar com a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em especial os pobres e em situação vulnerável, incluindo crianças, a alimentos seguros, nutritivos e suficientes durante todo o ano.
Para o Brasil, país que já havia saído do Mapa da Fome da ONU em 2014 e retornou a ele em 2022, essa meta tem um sentido adicional de urgência e de responsabilidade histórica. O Brasil produz alimentos em quantidade suficiente para alimentar sua população várias vezes — e ainda assim milhões de famílias não têm o que comer. Essa contradição não é climática nem logística: é política. A fome no Brasil é resultado de escolhas sobre distribuição de renda, sobre programas sociais e sobre prioridades de investimento público.
Insegurança alimentar no Brasil: dados essenciais
- Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE 2017-2018), 36,7% dos domicílios brasileiros viviam em algum grau de insegurança alimentar
- Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN) indicam que, em 2022, mais de 33 milhões de brasileiros enfrentavam fome, o nível mais alto desde 2004
- Crianças negras e indígenas têm probabilidade significativamente maior de viver em insegurança alimentar grave
- A região Norte e o semiárido nordestino concentram as maiores taxas de insegurança alimentar severa
- A pandemia de Covid-19 aprofundou significativamente a insegurança alimentar em famílias de baixa renda
O que é insegurança alimentar, além da fome visível
Insegurança alimentar não é apenas fome, é a ausência de acesso regular, permanente e suficiente a alimentos de qualidade em quantidade necessária para uma vida saudável. A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), desenvolvida pelo IBGE, distingue três graus:
- Insegurança alimentar leve: preocupação com a possibilidade de acabar a comida, comprometimento da qualidade, mas a quantidade ainda é suficiente
- Insegurança alimentar moderada: redução quantitativa da alimentação entre adultos para poupar comida para as crianças
- Insegurança alimentar grave: redução quantitativa da alimentação também entre crianças, chegando à fome propriamente dita
Essa distinção é importante porque revela que a maioria das situações de insegurança alimentar não é visível na aparência das crianças. Uma criança que parece bem nutrida pode estar em família com insegurança alimentar moderada, onde a mãe come menos para que ela coma mais, onde o cardápio é restrito ao que é barato e onde o amanhã é incerto.
A fome tem muitas faces. Nem todas têm barrigas inchadas. Algumas têm olhos sonolentos numa sala de aula depois do almoço. Algumas têm nota baixa em matemática na semana do fim do mês. Algumas têm birras que a professora interpreta como comportamento difícil.
Como a insegurança alimentar afeta o desenvolvimento, por fase da vida
O impacto da insegurança alimentar sobre o desenvolvimento infantil varia significativamente de acordo com a fase da vida em que ocorre e é especialmente grave nos primeiros anos, quando o cérebro está em seu período de maior plasticidade e vulnerabilidade.
| Fase | Impacto da insegurança alimentar | Consequências de longo prazo |
| Gestação | Desnutrição materna compromete formação do sistema nervoso central, peso ao nascer, desenvolvimento de órgãos | Maior risco de doenças crônicas, menor QI, dificuldades de aprendizagem, efeitos que duram toda a vida |
| 0 a 2 anos | Déficit de micronutrientes (ferro, zinco, vitamina A) afeta diretamente o desenvolvimento cerebral | Anemia, comprometimento cognitivo, atraso no desenvolvimento motor e da linguagem |
| 2 a 6 anos | Insegurança alimentar comprometimento da atenção, memória e capacidade de aprendizagem pré-escolar | Dificuldades na alfabetização; menor prontidão escolar; impacto na autoestima |
| 6 a 12 anos | Fome no período escolar compromete concentração, memória de trabalho e desempenho acadêmico | Queda nas notas, maior taxa de reprovação e abandono, menor participação em atividades |
| 12 a 17 anos | Insegurança alimentar associada a depressão, ansiedade, irritabilidade e comportamentos de risco | Abandono escolar, vulnerabilidade ao trabalho precoce, comprometimento da saúde mental |
Um conceito central para entender esses impactos é o da janela dos primeiros 1000 dias, da concepção até os dois anos de idade. Nesse período, os déficits nutricionais produzem efeitos sobre o desenvolvimento cerebral que são parcialmente irreversíveis. Não porque a criança seja menos capaz: porque o cérebro em formação não recebeu os nutrientes de que precisava para construir as estruturas que sustentarão o aprendizado e o desenvolvimento emocional pelo resto da vida.
Fome e aprendizagem: o que acontece na sala de aula
A relação entre fome e aprendizagem é direta e bem documentada. O cérebro é o órgão que mais consome energia do organismo e quando essa energia não está disponível, as funções cognitivas são as primeiras a ser comprometidas.
Uma criança que vai para a escola sem café da manhã experimenta queda mensurável na atenção, na memória de trabalho e na capacidade de processar informações novas. Estudos mostram que o desempenho acadêmico de crianças em insegurança alimentar é consistentemente inferior ao de crianças com segurança alimentar, mesmo controlando por outros fatores socioeconômicos.
Mas a fome não afeta apenas a cognição. Afeta o comportamento: crianças com fome são mais irritáveis, mais impulsivas, menos capazes de regular emoções. Professores e educadores que não sabem que uma criança está com fome podem interpretar esses comportamentos como indisciplina, déficit de atenção ou dificuldade emocional e responder com reprimendas que pioram a situação.
O efeito do fim de mês
Um fenômeno documentado em pesquisas sobre aprendizagem e pobreza é o chamado “efeito do fim do mês”: o desempenho escolar de crianças em situação de insegurança alimentar cai consistentemente nas últimas semanas do mês, quando os recursos familiares estão mais escassos. Professores atentos a esse padrão podem perceber o que está acontecendo e que o problema não é a criança.
O papel da alimentação escolar
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), criado em 1955 e reformulado ao longo das décadas, é um dos programas sociais mais longevos e mais eficazes do Brasil. Garante alimentação gratuita a todos os estudantes da rede pública durante o período escolar e tem impacto documentado sobre frequência escolar, desempenho acadêmico e estado nutricional.
Para milhões de crianças brasileiras, a merenda escolar é a refeição mais completa e mais nutritiva do dia, às vezes a única garantida. Isso dá ao PNAE um papel que vai muito além da nutrição: é uma rede de segurança alimentar que funciona dentro da escola.
Organizações sociais de contraturno que oferecem alimentação (refeições, lanches, complementação nutricional) estão cumprindo uma função que tem impacto direto sobre o desenvolvimento e sobre a capacidade de as crianças aproveitarem as atividades do programa. Alimentar não é atividade paralela ao trabalho pedagógico: é condição para que ele aconteça.
O que funciona: políticas com evidência
Transferência de renda
O Programa Bolsa Família, e sua versão atual, tem efeito documentado sobre a segurança alimentar das famílias beneficiárias: aumento do consumo de alimentos, melhora da diversidade alimentar e redução da insegurança alimentar grave. O impacto é maior quando o valor da transferência é suficiente para cobrir as necessidades básicas e menor quando o valor é insuficiente para isso.
Alimentação escolar de qualidade
O PNAE, quando bem implementado com cardápios diversificados, frescos e adaptados à cultura alimentar local, tem efeitos significativos sobre o estado nutricional de crianças em situação de vulnerabilidade. A lei que exige que 30% dos recursos do PNAE sejam usados na compra de alimentos da agricultura familiar é um exemplo de política que conecta segurança alimentar, sustentabilidade e desenvolvimento local.
Programas de suplementação nutricional
Suplementação de ferro, vitamina A e outros micronutrientes para crianças de 0 a 5 anos e para gestantes em situação de risco, distribuída pelo SUS, tem impacto direto sobre a prevenção de anemia e de deficiências que comprometem o desenvolvimento cognitivo. A cobertura ainda é insuficiente em muitos territórios.
Visita domiciliar e acompanhamento de saúde
Programas de visita domiciliar a famílias com crianças de 0 a 2 anos, como o programa Primeira Infância Melhor (PIM) no Rio Grande do Sul, identificam precocemente situações de insegurança alimentar e conectam famílias aos serviços disponíveis. Essa articulação entre saúde, assistência social e proteção é um dos elementos mais eficazes para reduzir o impacto da insegurança alimentar nos primeiros anos de vida.
O que funciona para enfrentar a insegurança alimentar na infância
- Transferência de renda em valor suficiente para garantir alimentação básica
- Alimentação escolar de qualidade com cardápios diversificados e frescos
- Suplementação nutricional para crianças pequenas e gestantes em situação de risco
- Programas de visita domiciliar e acompanhamento de saúde nos primeiros 1000 dias
- Banco de alimentos e cozinhas comunitárias em territórios de alta vulnerabilidade
- Hortas escolares e comunitárias com impacto nutricional, pedagógico e de autonomia alimentar
- Ação integrada entre saúde, assistência social e educação no território
O papel das organizações sociais
No Brasil, organizações sociais que atendem crianças em situação de vulnerabilidade frequentemente são a linha de frente no enfrentamento da insegurança alimentar, especialmente nos fins de semana, nas férias escolares e nos períodos em que o PNAE não cobre.
Para organizações como a Querubins, oferecer refeição de qualidade não é um serviço complementar: é uma condição para que qualquer outra atividade, pedagógica, cultural, esportiva, psicossocial, tenha impacto real. Uma criança com fome não aprende, não brinca e não se desenvolve com a mesma plenitude de uma criança alimentada.
O que organizações sociais podem fazer em relação à insegurança alimentar
- Garantir ao menos uma refeição nutritiva por dia para cada criança atendida
- Treinar a equipe para identificar sinais de insegurança alimentar: comportamento, estado físico, relatos familiares
- Articular com o CRAS para acesso a benefícios alimentares e encaminhamento ao CadÚnico
- Registrar a situação alimentar das famílias atendidas como indicador de vulnerabilidade e de resultado
- Criar hortas nos espaços do projeto como ferramenta pedagógica e como complemento alimentar
- Não usar comida como recompensa ou punição, ter uma relação saudável e respeitosa com a alimentação no espaço
O que ainda impede o avanço no combate à insegurança alimentar infantil
- Valor insuficiente das transferências de renda para cobrir o custo real da alimentação adequada
- Cortes no orçamento do PNAE que reduzem a qualidade e a variedade das refeições escolares
- Ausência de cobertura alimentar nas férias escolares, quando a merenda para
- Dificuldade de acesso ao CadÚnico e aos benefícios sociais por famílias sem documentação ou em situação irregular
- Falta de integração entre saúde, assistência social e educação no território
Conclusão
A fome de uma criança não é apenas um problema de saúde. É uma violência silenciosa, persistente e frequentemente invisível contra o direito ao desenvolvimento pleno. Uma criança que não come direito não aprende, não brinca, não cresce como poderia. E cada dia de privação nutricional nos primeiros anos de vida é um dia cujo custo o desenvolvimento humano paga por décadas.
O ODS 2 existe para lembrar que erradicar a fome não é uma utopia: é uma escolha. O Brasil já provou que é possível, entre 2003 e 2014, tirou dezenas de milhões de pessoas do Mapa da Fome. Sabe o que funciona. Tem os programas. Precisa, fundamentalmente, da vontade política de sustentá-los, financiá-los adequadamente e chegar com eles onde ainda não chegam.
Para as organizações sociais que atendem crianças em situação de vulnerabilidade, o ODS 2 começa na cozinha. Na refeição que é preparada com cuidado, que é servida com dignidade, que garante a uma criança que o dia tem pelo menos um momento em que o corpo recebe o que precisa. Isso não é pequeno. Para muitas crianças, é o que torna tudo mais possível.








