“Mas é assim que as coisas são.” Essa frase, dita com boas intenções, com cansaço, com a convicção de quem está apenas descrevendo a realidade, é uma das forças mais conservadoras na transmissão das desigualdades de gênero entre gerações. Porque as coisas são assim, em parte, porque ensinamos que são assim.
Crianças não nascem sabendo o que é esperado de meninos e de meninas. Aprendem. Aprendem nos brinquedos que recebem, nas histórias que ouvem, nas emoções que são permitidas e nas que são proibidas, no que é valorizado quando fazem e no que é ignorado. Aprendem com os adultos que as criam — e com a sociedade que esses adultos habitam.
O ODS 5 — Igualdade de Gênero — prevê o fim da discriminação e da violência contra mulheres e meninas, a participação plena e a igualdade de oportunidades em todas as esferas da vida. Alcançar essa meta até 2030 depende de muitas coisas: de leis, de políticas públicas, de mudanças institucionais. Mas depende também de algo que acontece nas famílias, nas escolas e nos projetos sociais todos os dias: de como adultos ensinam crianças a ser quem são e do quanto essa ensinagem reproduz ou questiona as hierarquias que o ODS 5 quer erradicar.
Este artigo não é um roteiro de criação perfeita. É um convite à reflexão sobre as mensagens implícitas e explícitas que transmitimos a meninos e meninas e sobre o que poderia ser diferente, para o bem de todos.
O ODS 5 e o que ele significa além das leis
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 5 estabelece metas que vão desde o fim de todas as formas de discriminação contra mulheres e meninas até a participação plena nas lideranças políticas e econômicas, a eliminação da violência de gênero, o reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado e o acesso igualitário a recursos e oportunidades.
Essas metas dependem de mudanças estruturais que exigem lei, política pública e transformação institucional. Mas também dependem de algo que acontece muito antes de qualquer instituição: da forma como crianças aprendem o que significa ser menino ou menina, o que é permitido, o que é esperado, o que é valorizado, o que é proibido. É aí que as desigualdades do futuro se instalam ou são prevenidas.
Igualdade de gênero não começa na legislação. Começa na pergunta que fazemos a uma criança quando ela chora: ‘Que foi?’ ou ‘Por que você está chorando? Você é menino.’
Como gênero é ensinado: a socialização de gênero
Socialização de gênero é o processo pelo qual crianças aprendem os papéis, as expectativas e os comportamentos associados ao seu gênero, através da família, da escola, da mídia, dos pares e da cultura mais ampla. Esse processo começa antes do nascimento, nas cores do quarto, nos brinquedos escolhidos, nas histórias contadas e continua durante toda a infância e a adolescência.
A socialização de gênero não é explícita na maioria dos casos. É feita de pequenas mensagens repetidas: o que se elogia, o que se corrige, o que se ignora, o que se proíbe. Uma menina que é elogiada por ser “cuidadosa e quietinha” e um menino que é elogiado por ser “corajoso e ativo” estão recebendo mensagens muito diferentes sobre o que se espera de cada um deles, sem que nenhum adulto tenha dito diretamente o que espera.
O problema não é que existam diferenças entre crianças. O problema é quando as expectativas baseadas em gênero limitam o desenvolvimento de cada criança ao que é considerado adequado para o seu sexo, em vez de expandir ao máximo o que cada criança pode ser, sentir e fazer.
O que frequentemente ensinamos e o que isso produz
A tabela abaixo organiza mensagens comuns que meninos e meninas recebem, os efeitos que produzem ao longo do desenvolvimento e o que poderia ser dito ou feito de forma diferente:
| O que frequentemente ensinamos | O que isso produz | O que poderíamos ensinar diferente |
| ‘Menino não chora’ / ‘seja forte’ | Homens com dificuldade de nomear emoções; menor busca por saúde mental; relação problemática com vulnerabilidade | ‘Sentimentos são de todos. Chorar é saudável. Você pode falar sobre o que sente.’ |
| ‘Menina não briga’ / ‘seja quietinha’ | Mulheres com dificuldade de impor limites; menor presença em espaços de poder; voz silenciada | ‘Você tem direito de dizer não. Sua opinião importa. Você pode ocupar espaço.’ |
| Brinquedos e cores divididos rigidamente por gênero | Restrição prematura de interesses e habilidades; hierarquia implícita (azul/rosa, construção/cuidado) | Oferecer diversidade de brinquedos, histórias e atividades, sem classificar por gênero |
| Meninas que cozinham, meninos que consertam | Divisão de trabalho doméstico reproduzida na vida adulta; mulheres sobrecarregadas | Tarefas domésticas compartilhadas por todos, desde criança, sem divisão por gênero |
| ‘Seja gentil’ / ‘não decepcione’ (mais para meninas) | Dificuldade de priorizar as próprias necessidades; tendência ao apaziguamento em detrimento do próprio bem-estar | Incentivar assertividade em todos: dizer o que pensa, pedir o que precisa, impor limites |
O custo da masculinidade rígida
“Menino não chora.” “Seja forte.” “Não seja fresco.” Essas frases, ditas com a intenção de preparar meninos para um mundo que vai ser duro com eles, produzem algo que os adultos raramente antecipam: homens que não sabem o que sentem, que não sabem pedir ajuda, que lidam com sofrimento através de comportamentos de risco, violência, substâncias, evitação, porque nunca aprenderam que sentir é humano e que pedir ajuda é força.
O Brasil tem uma das maiores taxas de suicídio masculino do mundo, homens morrem por suicídio três a quatro vezes mais do que mulheres, em parte porque buscam menos ajuda e chegam mais tarde aos serviços de saúde mental. O Brasil tem também altas taxas de violência cometida por homens — que é um problema social urgente, com raízes complexas que incluem a socialização que ensina que força, dominação e controle são atributos masculinos centrais.
Meninos que crescem aprendendo que sentir é fraqueza, que pedir ajuda é humilhação e que afeto é coisa de mulher crescem com um vocabulário emocional empobrecido e pagam por isso, com a vida, com a saúde e com os relacionamentos.
O que a masculinidade rígida custa para meninos e para a sociedade
- Menor busca por ajuda em saúde mental: homens chegam mais tarde e em estado mais grave
- Maior risco de suicídio: homens morrem por suicídio 3 a 4 vezes mais do que mulheres no Brasil
- Relacionamentos com dificuldades de intimidade: dificuldade de nomear e compartilhar emoções
- Maior tolerância à própria violência: o menino que aprendeu que dor é coisa que se aguentam em silêncio
- Perpetuação da violência de gênero: a dominação como expressão de masculinidade tem consequências reais sobre mulheres e crianças
O custo da feminilidade submissa
“Seja quietinha.” “Não seja grossa.” “Uma menina bem-criada não age assim.” Essas frases, ditas com a intenção de tornar meninas agradáveis e bem aceitas, produzem algo que também tem custos reais: mulheres que silenciam suas opiniões, que não conseguem impor limites, que priorizam o conforto alheio ao próprio bem-estar, que se sentem culpadas quando discordam ou quando dizem não.
Meninas aprendem cedo que ser amada depende de ser agradável e essa associação produz uma pressão que não termina na infância. A dificuldade de dizer não, de pedir o que se precisa, de ocupar espaço de poder sem sentir-se ilegítima, essas são consequências documentadas de uma socialização que premia a submissão e pune a assertividade em meninas.
Isso não significa que gentileza, empatia e cuidado sejam qualidades ruins, são virtudes fundamentais. O problema é quando são ensinadas exclusivamente para meninas, como obrigação, enquanto meninos são livrados dessa expectativa. Cuidado genuíno e espontâneo é riqueza humana. Cuidado imposto como condição de ser amada é aprisionamento.
Criar para um mundo mais justo: o que fazer
Para meninos
- Nomear e validar emoções (todas: tristeza, medo, ternura, fragilidade) sem minimizar nem redirecionar para raiva ou silêncio
- Celebrar o cuidado: elogiar quando cuida de um animal, quando se preocupa com um amigo, quando ajuda nas tarefas de casa
- Expor a modelos masculinos que expressam emoção, que cuidam, que colaboram, não apenas que competem e dominam
- Questionar com ele estereótipos de masculinidade quando aparecem, nos filmes, nas músicas, nas conversas
- Ensiná-lo a pedir ajuda como ato de coragem, não de fraqueza
Para meninas
- Validar e incentivar a assertividade: não confundir “grossa” com “que sabe o que quer”
- Ensinar que dizer não é direito, não é grosseria e praticar isso em situações pequenas do cotidiano
- Expor a modelos femininos variados, que sejam cientistas, líderes, artistas, atletas, e não apenas cuidadoras ou princesas
- Não exigir sorriso: o direito de uma menina de não estar sempre sorrindo e agradando
- Envolvê-la em decisões: dar voz às suas opiniões e tratá-las como legítimas
O que criar meninos e meninas para a igualdade de gênero parece na prática
- Tarefas domésticas compartilhadas por todos, desde cedo, sem divisão por gênero
- Liberdade de brincar com qualquer brinquedo, praticar qualquer esporte, explorar qualquer área de interesse
- Histórias com personagens variados em papéis variados, sem hierarquia de gênero nos protagonismos
- Adultos que modelam: pai que cuida e cozinha; mãe que decide e lidera; avó que conserta; avô que chora
- Questionar estereótipos quando aparecem: ‘Por que você acha que isso é só de menino?’
- Espaço para emoções em todos, sem criar ‘exceções’ para um gênero que o outro não tem
Representação importa
Uma das formas mais eficazes e mais invisíveis de socialização de gênero é a representação: quem aparece nos livros, nos filmes, nas séries, nos jogos e nas músicas que crianças consomem. E em que papéis.
Uma criança que só vê mulheres em papéis de cuidadoras e homens em papéis de heróis está recebendo uma mensagem poderosa sobre o que cada um pode ser. Uma criança que vê cientistas mulheres, líderes homens que choram, famílias com múltiplas configurações e protagonistas de diferentes gêneros em diferentes tipos de aventura está recebendo uma mensagem diferente, de que o mundo é mais amplo do que os estereótipos.
Como criar um ambiente com representação diversa de gênero
- Buscar livros com protagonistas mulheres em aventuras, ciências, liderança, não apenas em histórias de amor
- Incluir personagens masculinos que expressam emoção, que cuidam, que colaboram, não apenas que salvam e competem
- Questionar ativamente estereótipos quando aparecem nos filmes, livros e músicas
- Apresentar biografias de mulheres cientistas, artistas, esportistas, líderes brasileiras e internacionais
- Não separar brinquedos e atividades por gênero e reagir com naturalidade quando uma criança cruza essas fronteiras
O papel dos educadores e organizações sociais
Educadores e profissionais de organizações sociais têm papel significativo na reprodução ou na transformação das desigualdades de gênero. Muitas vezes de forma não intencional: elogiando meninas pela aparência e meninos pela habilidade; intervindo mais nas brigas de meninos e ignorando as de meninas; pedindo às meninas que ajudem os meninos em sala mas não o contrário; tratando a agressividade de meninos como mais natural do que a de meninas.
O primeiro passo é a consciência: perceber essas assimetrias na própria prática. O segundo é a mudança intencional e gradual de como se relaciona com meninos e meninas no espaço educativo.
O que educadores podem fazer pelo ODS 5
- Elogiar meninos e meninas pelas mesmas qualidades: esforço, criatividade, cuidado, coragem
- Incluir histórias e referências com diversidade de papéis de gênero de forma contínua, não apenas pontualmente
- Nomear e questionar estereótipos quando aparecem nas falas das crianças
- Criar atividades que misturem meninos e meninas em papéis variados, sem naturalizar as divisões
- Ser modelo: homens que cuidam e expressam emoção; mulheres que lideram e discordam
- Incluir nos debates sobre saúde, convivência e cidadania a perspectiva de gênero com linguagem adequada à faixa etária
Perguntas para autoavaliação do educador
- Elogio meninos e meninas pelas mesmas qualidades ou tenho padrões diferentes?
- Quando um menino chora, como reajo? E quando uma menina se impõe com firmeza?
- Quem ocupa os espaços de protagonismo nas atividades: meninos, meninas, ambos?
- As histórias e referências que uso incluem personagens de ambos os gêneros em papéis variados?
- Como falo sobre trabalho doméstico, cuidado e liderança de forma que inclui ou exclui algum gênero?
Conclusão
Criar meninos e meninas para um mundo mais justo não é tirar de nenhum deles quem são. É ampliar o que cada um pode ser. É dizer ao menino que chorar é humano e que isso não diminui quem ele é. É dizer à menina que ocupar espaço é direito e que isso não a torna menos amável. É mostrar a ambos que cuidar e liderar, sentir e agir, receber e oferecer não são privilégios de um gênero.
O ODS 5 não é apenas sobre legislação, é sobre o mundo que construímos a cada conversa com uma criança, a cada livro que escolhemos, a cada vez que validamos ou silenciamos uma emoção, a cada tarefa doméstica distribuída ou não entre os filhos. A igualdade de gênero começa antes das leis. Começa no cotidiano.
Para a Associação Querubins, trabalhar com crianças em contextos de vulnerabilidade é também trabalhar com as estruturas que perpetuam essa vulnerabilidade. E o gênero é uma dessas estruturas: que coloca sobre meninas um peso desproporcional de cuidado e de silêncio, e sobre meninos um peso desproporcional de dureza e de invulnerabilidade. Desafiar essas estruturas com meninos e meninas reais, em situações reais, é trabalho do cotidiano e é, também, trabalho do ODS 5.






